Tenho procurado tornar claro que a estratégia 3Ds - mais despesa, mais défice, mais dívida - é totalmente insustentável.
É uma evidência, ninguém discordará. E, em consequência, tenho vindo a prever que com o actual nível de dependência, o crescimento não bastará para assegurar o serviço da dívida, quanto mais para conseguir amortizá-la. Com soluções de continuidade, a nossa insustentabilidade financeira é, não só evidente, como previsível. Infelizmente, Portugal e Crise têm o seu quê de pleonasmo.
É neste contexto que se irá debater o PEC, Plano de Estabilidade e Crescimento. Um Plano que vai ter que partir desta evidência para contrariar esta previsão. Do seu optimismo vai depender o ambiente de negócios com que vamos operar para crescer. Da sua credibilidade vai resultar a estabilidade dos mercados externos de dívida de que dependemos. Conciliar, num plano, motivação interna para o crescimento, reduzindo em simultâneo a despesa, o défice e a dívida, só será possível com mudanças radicais.
Vejamos um exemplo concreto.
Portugal é considerado internacionalmente, justa ou injustamente, um dos países com maior rigidez laboral e garantismo nos direitos dos trabalhadores. Esta ideia está quantificada no relatório de competitividade do World Economic Fórum, que coloca Portugal em 103º lugar (em 133) ao nível da flexibilidade laboral e em 114º ao nível do custo de despedimento. Essa rigidez não impediu Portugal de terminar o ano com uma taxa de desemprego de 10,4% (acima da média e moda europeias), nem consegue esconder a baixa produtividade portuguesa, cerca de 71% da média de produtividade da UE, que, se for medida por hora trabalhada, passa para 64% (55,5% da média da Eurozona).
Com tantos direitos e tão maus resultados, seria expectável que sociedade civil e poderes públicos estivessem em pleno debate sobre reformas radicais que alterassem modelos e normas. Apostar em contratos a prazo? Flexibilizar despedimentos entre quadros superiores? Flexibilizar salários?
Mas não. Nem sindicatos nem confederações sentem vontade política, ou espaço social, para que este e outros temas prioritários assumam lugar na agenda.
Ora, talvez valha a pena reflectir sobre a empresa eleita como "A Melhor Empresa para Trabalhar em 2010", na iniciativa anual da Heidricks & Struggles e da Revista Exame. Porque a eleita foi a RE/MAX, uma empresa num sector em crise, que quase não paga salários, mas é pródiga em comissões, que não protege empregos, mas partilha resultados, que não garante trabalho, mas investe em formação e ‘know-how'.
Porque exemplos como este me levam a acreditar que um novo discurso pode contornar a evidência e pode alterar o previsível.
Artigo de António Ramalho